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 Vicente do Rêgo Monteiro é um dos fundadores do modernismo no Brasil e juntamente com seu irmão – Joaquim – Manuel Bandeira e Cícero Dias, será o arauto do «novo tempo» que substituiria o academismo da escola pernambucana; mas, nem por isso, deixou de perceber conscientemente a importância de sua cultura de origem, combinando de forma magistral sua raiz cultural com as experiências plásticas de seu tempo. Como no quadro em questão, clara é sua filiação ao cubismo francês, à simplificação dos planos, mas que refletiam, principalmente, nas formas arredondadas, a cerâmica marajoara. Pintou tudo; indígenas figuras urbanas, religiosas e mitológicas, sempre seguindo o cânone do racionalismo construtivo, presente em sua obra desde 1925. Nesta fase explorou reduzida gama de cores em seqüência da rica politonalidade de suas aquarelas. A intensa manifestação fica por conta do elemento gráfico. Obras como a «Caça – 1923» e a «Pietà – 1924», de fatura muito semelhante a este «Vendedor de frutas», nos remetem às colossais corporaturas egípcias e assírias de atemporalidade universal.
 Após breve passagem pelo figurativo, encontramos Tomie, nos últimos anos da década de 1950, a pintar manchas de cor com preciosas texturas, já completamente definida pela linguagem abstracionista. A afinidade com Mark Rothko dá lugar, a partir da década de 1970, juntamente com seus trabalhos em litogravura e serigrafia às linhas curvas com a evidente proposta de movimento. Tal como no quadro em evidência, além do movimento percebe-se uma sobreposição de cores agora mais quentes e vibrantes, contraste cromático intenso e clara distribuição dos espaços na tela.
 O quadro, de grandes proporções que nos é dado admirar é muito representativo da obra de Reynaldo; é figurativo e, ao mesmo tempo, contemporâneo e por não ter elementos regionalistas nordestinos, nos fala em uma linguagem internacional. Nos transmite, num primeiro momento, uma certa tranqüilidade que rapidamente nos conduz a um desassossego similar ao que provamos quando estamos diante de um quadro de Edward Hopper; que, apesar de ser o pintor realista americano mais conhecido do período «entre-guerras»; sensatamente estava fora de sincronia com o clima ufanista daquele período, pois transmitia fisicamente a sensação de «solidão», «a vacuidade atrás da agitação», com tal força e realismo a que o espectador era levado a crer que poderia cortá-las com uma faca. A visão de seus quadros bem como os de Reynaldo sempre me levaram a «reflexionar»! Nesta cena, Balthus, ovvero, Balthazar Klossowski de Rola, aparece como uma lembrança distante, pois, o menino, a mucama e as três personagens sentadas à mesa parecem indiferentes entre si, como se vivessem somente em seus «mundos». A obra convincentemente figurativa mostra um desenho incisivo e de grande precisão; talvez influxo dos primitivos flamengos e italianos, que Reynaldo Fonseca viu, observou com afinco e aprendeu a admirar.
 Seu árduo trabalho de dominar o desenho e o de ordenar subjetivamente a distribuição metódica da composição - exercício repetido sempre a partir da natureza morta, nos diz o artista - aparece claramente mesmo nas obras de endereço surrealista como as que aqui apresentamos. Vive de seu trabalho desde 1985. Partiu de uma referência real para criar imaginárias paisagens marinhas ou interioranas de caráter idealizado e romântico; passou por naturezas-mortas e desaguou de forma fortuita e borbotoante em pássaros, feixes de peixes e outras formas geométricas criando composições francamente oníricas, surrealistas, mas sempre com proporções harmoniosas e seu hábil manuseio das cores nos envolve esteticamente. Concomitantemente, produziu cenas de iconografia paulistana, a partir do real, através das quais nos transporta para a cidade ideal, porém o equilíbrio, a luminosidade e a transparência das cores utilizadas nos transmitem uma visão romântica e com ela, a paz e a harmonia há muito perdida. Outras obras inspiradas no expressionismo abstrato ou no tachismo abriram uma terceira via, cuja opção seria eliminar o figurativo criando uma obra carregada de emoção e diligente dinamismo. Sem abandonar nenhuma das linguagens, o que mantém constante em sua obra é a infinita variedade e inventividade de assuntos e cores; práxis oriunda de um processo interno de recepção sensorial. Celebro seu talento; juntos celebraremos seu sucesso!
 O quadro aqui representado nos mostra um pintor primitivo que instintivamente mostra sua vertente expressionista; quase que constante em toda a sua obra uma vez que a pintura de «Silva», não tem fases distintas, como num movimento uniformemente variado sobre um mesmo tema; sua brasilidade expressa por meio de queimadas, carros de boi, fazendas, a dura vida do campo e tantos outros retratos da vida interiorana. A vibrante palhoça contrasta e complementa a dramática paisagem pintada em cores escuras e severas, mas o céu pontilhado de estrelas suaviza o amanhã... . Os demais elementos presentes dão equilíbrio à obra; a árvore que verte um caudaloso liquido branco bem poderia ser uma seringueira abatida...
 Quadro de cunho espontâneo e de invejável expressão que não necessita de um «libretto» a nos explicar a que veio ou do que se trata. Que importância teria se a figura retratada fosse uma índia ou uma baiana? Seu repouso frontal e hierático, já nos transmitiu e estabeleceu a necessária transferência, essencial para a comunicação visual, estética e emocional. Não é essa a essência da obra de arte? A linha precisa de seu corpo sobre o fundo abstrato determina um volume que enriquece a figura e a apresenta com perspicuidade, mas sem a diafaneidade que poderia ter sido «deixada de fazer»
 Esta é uma obra de Pennacchi de proporções maiores – 80x120 cm – das que comumente estamos acostumados a ver. De composição insólita, duas construções triangulares a mantém em perfeito equilíbrio onde dois grupos de campesinos, com vestimentas festivas, são os protagonistas de um dia de laser no campo. Um vendedor de pássaros tenta entusiasmar as crianças para vender sua mercadoria. A grande casa colônica, de portas abertas está pronta para receber seus habitantes e amigos para o almoço dominical. A Igreja e a paisagem ao fundo, bem perspectivamente colocadas nos remetem a um cenário distante; como o pano de fundo de um teatro. Tudo nos faz pensar à Itália distante, porém, num feliz contexto de gestos e atitudes que brotam das imagens interiormente recriadas das veracidades vividas e observadas. Tudo banhado por cores absolutamente tropicais, brasileiras, numa meditada harmonia induzida na desordem involuntária dos aspectos naturais. Nesta obra se retrata o pulsar da vida desta pequena comunidade, possível através do sentido da visão, da vasta gama de capacidade do olhar e da eficácia persuasiva das imagens. Valerio Pennacchi-Pennacchi.
 Se há um pintor brasileiro inscrito na história da arte mundial, este é Cícero Dias. No breve recorte biográfico apresentado neste catálogo explicamos porque; ou melhor, pretendemos aguçar a curiosidade do leitor para que procure, na vasta bibliografia existente sobre o artista, as razões desta nossa afirmação. Como na obra ao lado, esse pintor instintivo e cerebral sempre soube conservar apesar de seu articulado cosmopolitismo – formado na Paris de intelectuais como Paul Éluard, de pintores como Pablo Picasso, Jean Arp, Robert Delaunay e demais integrantes da «Escola de Paris» – a representação de sua terra através dos elementos terra, mar, cores e luminosidade, evitando, através da uma imunizante simplificação, o perigo que poderia representar a pintura demasiado etnográfica e/ou social. As figuras estão reclinadas em atitude contemplativa e em equilíbrio, separadas dos afazeres que mantém o «aristocrático engenho» por «casinhas» enfileiradas que ainda se encontram nas comunidades suburbanas do interior as quais foram transmutadas em um «biombo multicolorido», típico desta última fase figurativa onde ao lirismo foi adicionada a geometria e soluções graficamente estéticas. Interpreto os múltiplos verdes da palmeira e da paisagem como a representação do muito que se pode obter com o cultivo da terra nordestina.
 Este desenho a carvão sobre papel kraft de Portinari é, no mínimo, curioso. Trata-se, de acordo com o Catálogo Raisonée do artista, de um dos «desenhos para transporte» para a pintura mural «Pau-Brasil»; que foi realizada em 1938, para o «Grande Salão de Audiências do Ministério da Educação». Por ser um «desenho de transporte» está admiravelmente acabado. De que se tratava afinal? Após a concepção do tema e do desenho e obtida sua aprovação por parte do comitente, o artista, em geral, apresentava um desenho detalhado do projeto final. O «desenho de transporte» ou o «desenho guia» era então reproduzido em tamanho natural sobre papel grosso ou ainda cartão. Este tinha seus contornos furados ou marcados com carvão para que, quando justaposto à parede já previamente preparada – com o reboque ainda úmido – o desenho pudesse ser facilmente transferido. O tal contorno transferido era rapidamente repassado formando assim o contorno final da figura. As cores eram aplicadas em seguida e somente a prática indicava ao artista que tonalidade adquiririam quando secas. Qualquer correção necessária significava a destruição do trabalho que havia sido feito, daí ser condição «sine qua non» a extrema habilidade e firmeza no traço, por parte do artista. Neste pequeno fragmento se percebe um desenhista que conhece a fundo o corpo humano e sua interpretação através do desenho onde, a enorme riqueza técnica e a expressão transmitida através da forma importam tanto ou mais que a cor. Na verdade, trata-se de um fragmento de um desenho de cerca de 280x250 cm onde os personagens eram distorcidos, alongados e transfeitos para transmitir-nos o efeito dramático, suas proporções heróicas sem a necessidade de pontuar as diferenciações dos tipos étnicos que retratava.
A simples visão deste «Porto de Santos» (visto do Guarujá) nos indica porque Benedito Calixto é considerado um dos melhores memorialistas brasileiros; e, juntamente com Almeida Junior e Pedro Alexandrino, os mais importantes pintores brasileiros do final do século XIX e começo do século XX.
Este específico registro iconográfico, que num primeiro momento poderia ser visto como prosaico, nos ilustra – assim como seu quadro «Inundação da Várzea do Carmo», de dimensões épicas – a paisagem, as edificações, as embarcações movidas a vapor, e os diversos aspectos da natureza, tal como ele as via.
Nesta obra, a precisão no registro das edificações em primeiro plano juntamente com o ainda bucólico espaço circunvizinho, nos mostra um precioso cenário onde o aspecto histórico é muito importante, fundamental mesmo; principalmente considerando-se a falta de registro causada pelo crescimento rápido e caótico imprimido às nossas cidades, cujos condutores não puderam ou não tiveram nem o tempo nem a oportunidade de fazê-las crescer considerando a herança recebida. Eram os tempos das benesses oriundas das exportações agrícolas, da chegada dos laboriosos migrantes e imigrantes e dos primórdios da industrialização paulista.
Um escritor de larga capacidade descritiva poderia engendrar a parábola de como o «avanço civilizador» sobrepujou a natureza, legando-nos cidades sem memória, que se transformariam em metrópoles, magalópoles, e finalmente, em necrólopes.
É, sem duvida, uma obra em que o artista se preocupou em retratar numa paisagem correta o desenvolvimento urbano daquele precioso momento.
Não é possível tecer alguns comentários sobre esta obra sem, pelo menos, fazer alguma referencia ao percurso artístico de Ianelli iniciado em 1944 com Colette Pujol e depois com Waldemar da Costa. Deles libertou-se imediatamente e, por assim dizer, foi um autodidata. Desenhou nus, retratos, paisagens e quanto mais a «Academia» poderia desejar e aplaudir. Na «Retrospectiva do MAM em 1978», seu trajeto foi apresentado de forma didática e clara. Percebiam-se largos passos entre «Olaria – 1947» e «Casas, Ponta da Praia – 1953» e «Paisagem – 1957»; e, através deles já estava traçado seu caminho para a abstração e a geometria. Seu quadro «Casas – 1960» apresenta um figurativismo simplificado e essencial e praticamente contém todos os elementos da sua obra geométrica. Com um salto de 15 anos o encontramos em plena fase geométrica, conforme pode ser constatado pela obra acima. Esta obra específica é um dos tantos exemplos da obra de um grande colorista atento para com a luminosidade e as mudanças cromáticas, apresentando-nos uma pintura puramente sensorial, superpondo quadrados, retângulos, planos que se unificam através da luminosidade circunspecta e comedida que, como uma névoa, parece partir dos tons mais baixos. Por toda a obra permeiam nuances e sutilezas cromáticas ...sensorialmente nossos olhos perlongam uma grande peça de seda!
Valerio Pennacchi-Pennacchi.
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